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Unicórnio? Antes as startups precisam virar um camelo  

Unicórnio, esse animal mitológico que simboliza força e pureza, é figura constante em fábulas e contos de fadas. Entretanto, também representa o objetivo da grande maioria dos empreendedores que criam startups mundo afora. Nesses casos, ser unicórnio representa uma organização com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Várias empresas atingiram esse status, que só aumenta o desejo e a vontade de quem está trilhando o caminho.  

A questão é que, para chegar lá, boa parte adota uma estratégia de crescimento sem critério, que inflacionou e desequilibrou o mercado, exigindo uma readequação nos processos e na forma de conduzir os negócios. Em suma: é preciso se tornar um camelo, animal capaz de se adaptar a condições extremas sem grandes recursos.  

O primeiro semestre de 2022 foi um choque de realidade para muitas startups brasileiras, incluindo os unicórnios. Um levantamento da Distrito mostra queda de 44% nos investimentos na comparação semestral, caindo para US$ 2,92 bilhões no fim de junho. No entanto, de janeiro a junho de 2021, esse volume chegava na casa dos US$ 5,25 bilhões. Além disso, também houve recuo de 21% no número de rodadas realizadas.  

Não à toa, uma onda de demissões tomou conta do mercado, assustando profissionais e especialistas. A maioria das startups mais conhecidas do país realizou algum tipo de corte no quadro de colaboradores. Algumas chegaram a cortar mais de 200 funcionários nos primeiros seis meses do ano. Uma situação até então inédita para muitas.  

Esse cenário é consequência de anos de atuação baseado em um modelo de crescimento a qualquer custo. Para se ter uma ideia, ainda de acordo com levantamento realizado pela Distrito, o investimento em startups passou de US$ 452,2 milhões em 2016 para US$ 9,4 bilhões em 2021. Uma valorização de quase 2.000% em apenas cinco anos, mesmo com a pandemia no meio do caminho que poderia reduzir esse apetite.  

E o que uma empresa faz quando tem bastante dinheiro para investir? Simples, vai às compras. Nesse caso, implica em adquirir novas tecnologias e principalmente contratar bons profissionais para garantir o andamento de todos os processos e objetivos. Houve um ataque feroz das startups no mercado de trabalho em busca das pessoas mais qualificadas disponíveis.  

No intuito de atingir o status de unicórnio, essas empresas inflacionaram a contratação de profissionais. Não se trata nem dos salários acima da média e dos diversos benefícios embutidos, mas de outras situações que eram incomuns na área de tecnologia. Diversas organizações, por exemplo, pagavam luvas polpudas para desenvolvedores saírem de seus locais de trabalho e assumirem novos postos. Isso mesmo, bonificações apenas para garantir a assinatura do contrato – algo que a gente costumava ver mais no futebol.  

A questão é que o mercado de trabalho brasileiro não estava preparado para essa verdadeira bolha. Além de profissionais qualificados de menos para vagas demais, essa dinâmica gerava também concorrência, e o dinheiro inevitavelmente ia acabar um dia. No intuito de se tornarem unicórnios, gastaram mais do que deveriam, ignorando um princípio básico da administração de empresas. A onda de demissões, portanto, é apenas a consequência dessas más escolhas.  

Felizmente, não há crise que dure para sempre. A retração das startups hoje pode servir como importante lição para as quais pretendem surgir no futuro. A brincadeira com o camelo é válida. Antes de sonhar alto, é necessário criar uma estrutura capaz de sobreviver aos desafios que o mercado impõe, identificando como aproveitar os melhores recursos –tecnológicos, financeiros e de pessoal.  

A saída passa pela adoção de um modelo híbrido de contratação de colaboradores. Em vez de disputar os profissionais disponíveis para formar uma equipe 100% dedicada a sua empresa, por que não contratar parceiros que possam fornecer uma equipe completa de especialistas em tecnologias? Além de reduzir o custo, uma vez que sai mais barato do que pagar todos os benefícios e salários, esse time tem toda a base tecnológica necessária para apoiar o crescimento saudável de seu produto ou serviço.  

Isso não significa que a startup precisa apostar em uma “terceirização”. Pelo contrário, o “núcleo duro” da empresa, ou seja, os profissionais que tomam as decisões e comandam os processos, podem ser totalmente dedicados a ela. Já os profissionais que atuam no desenvolvimento e na construção de projetos podem ser fornecidos por organizações que já possuem o know-how de tecnologia que apoia as diferentes etapas de um negócio.  

O importante é compreender que o modelo de crescimento a todo custo não se sustenta mais. O mercado de startups finalmente amadureceu e como qualquer outro segmento descobriu que o oceano azul não é para sempre. Sempre há desafios e crises que precisam ser superados – e a boa gestão de pessoas é o caminho mais recomendado para passar por eles. Saber lidar com essas questões é o que diferencia uma organização de sucesso e faz com que o camelo vire um lindo unicórnio no futuro.  * Rafael Cichini, CMO & Business Director da Squadra Digital, referência em transformação e experiência digital de entrega unificada

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